Ao visitante

À Procura do Impossível trata-se dos momentos nos quais me lembro que, por trás do cotidiano, existem coisas incríveis.

B.W Riccardo


domingo, 25 de janeiro de 2015

O Primeiro homem*

Hoje faz dez anos que meu pai se foi. Gostaria de deixar aqui registrada minha saudade.


Meu encontro com a arqueologia começou há um ano. A pesquisar por um trabalho de graduação, encontrei um exemplar da 1° edição de um livro de Millar Burrows, escrito durante os achados arqueológicos do Mar Morto, nos anos 40 e 50, o maior achado moderno.

O livro estava desfigurado. Suas páginas amarelas tinham um cheiro horrível. Comecei ler o livro por volta das 22hs, quando cheguei em casa. Li imóvel cada palavra. Observei diversas vezes as gravuras em preto e branco, que me lembravam o antigo dicionário J. Davis do meu pai. Li como se eu mesmo tivesse encontrado o tesouro que ali fala. Li por dias aquele livro enorme, à medida que uma impressão de familiaridade me cercava. Li com a sensação da mulher que encontrou a dracma perdida. Li como um homem que encontrou o caminho de casa. Li, porque era a voz do meu pai explicando a um menino de 7 anos, que na terra existiu um Alexandre.

Me lancei aos papeis da arqueologia, e começando pelo grego antigo, cavei o território desconhecido do aramaico. Cavei pelo hebraico, até chegar ao cananita cuneiforme mais antigo que se conhece. Cavei, porque enquanto cavava, era como encontrar papai na minha infância, deslumbrado com seus livros sobre a antiguidade. Cavei como se visse meu pai orgulhoso em me ver fazê-lo. Cavei, porque ao cavar era como descobri-lo e estar com ele, naqueles dias inteiros de leitura. Cavei o máximo que eu pude, para me certificar de que eu posso continuar chorando sozinho pelos anos. Cavei por dias e noites, para me certificar que, no mundo, sempre existirá um lugar para onde eu possa ir novamente e dizer: “papai”. 


* Escolhi o mesmo título do ultimo livro de A. Camus porque retrata sentimento semelhante. 
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